Saturday, April 08, 2006

APRESENTAÇÃO

“pois o que em verdade quero
é a não poesia fingida
num pranto esgotado
e levem para fora de mim toda modernidade.”
(José Leite Netto)


Li com muita curiosidade o livro O Olho de Tebas de José Leite Netto e percebi o nível de inquietação que o leva a refletir sobre a dimensão humana, arrastando essa inquietação para o plano simbolista. Um surto de idealismo e esperança, que se vale da intuição e não da razão e da lógica, sobressai-se em todo o livro, que na primeira parte revela-se fechado e pessimista. O que pincela a Poesia de José Netto com uma tinta simbolista é o fato de não nomear os objetos que descreve, mas apenas sugeri-los. Dessa forma, em O Olho de Tebas, a Poesia é muito feita de enigmas, de sugestões, o que enche o leitor de curiosidade, numa viagem evocativa. Sobre este aspecto, convém lembrar as palavras do poeta francês Stéphane Mallarmè: “Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que é feito da felicidade em adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o sonho.... deve haver sempre enigma em poesia e é o objetivo da Literatura - e não há outro - evocar os objetos”.
A Poesia que o habita parece sentir-se vítima do mundo em que vive e por isso solta seu grito inconformado ante o fenômeno da modernidade, considerando-a irrelevante. Há uma voz inesperada que vê o mundo, não como ele existe, mas como realmente quer vê-lo, escolhendo seletivamente a beleza da simplicidade. Sua voz interior é persistente: “não/não aceito a modernidade/estou farto dela/levem daqui para paralém de mim/todos os computadores/toda engenharia elétrica/todos os psicólogos e seus remédios/quero que em mim, novamente repito,/quero que em mim surja a felicidade/dos antigos/desenhada numerologicamente na cabala/de Papus, místico/louco ou não”

O livro O Olho de Tebas contém poemas diversificados em suas temáticas. Divide-se em quatro partes: das cismas, dos sonhos, do tempo, da morte. Alguns de seus aspectos mais significativos nos dizem de um mundo fragmentado entre a solidão, a escuridão, o medo, a morte ou a efemeridade da vida. Acoplado a tudo isso, um tom melancólico, místico e intimista.
Ao mesmo tempo em que fala de “muralhas e amores em desintegrações” direciona seus versos para os que tiveram sua liberdade privada, quer nas ditaduras, quer na escravidão negra, mas também branca, referindo-se a todos os injustiçados da raça humana: canto o quanto canso/o quanto bebo/bebo à vitória/dos que já foram/presos/num passado/onde habita um dita-dor/em estado de permanência/continência/já era/havia noutra era/em mim um pássaro/à procura de livra-se/porque li-ber-da-de/era uma meta/não uma opção:/o escravizado negro/o branco/escravizado/canto o quanto canso/o quanto/bebo aos meus e aos mais/que já foram/amar em outras dimensões.

Não tenho dúvidas de que O Olho de Tebas é uma criação poética na dimensão simbolista. O poeta que em José Netto floresceu, mesmo em meio ao conflito pessoal, possui fértil campo para criação Poética.

Nilze Costa e Silva
Escritora Pós-graduada em Teoria da Literatura.

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home